2nd Life!

Publicado em 18/09/2019 00:00
2nd Life!

2nd Life!

 

Algumas histórias devem ser ditas. E lições devem ser aprendidas!

 

Na semana passada (09 a 14 de setembro de 2019), tivemos oportunidade de reunir alguns amigos velejadores em Jericoacoara. Velejamos bastante, curtimos, e tivemos um grande motivo para comemorar: A vida de nosso novo amigo, Uwe Second Life.

Não sabemos o sobrenome dele, mas isto nem importa, pois ele mesmo estava nos dias que se seguiram, se auto intitulando desta maneira. 2nd Life!

O que na realidade aconteceu? Nosso amigo e velejador Luiz Carlos Uller (o Caio do Windville) estava em seu bordo em direção à praia, quando viu outro velejador ainda bastante distante saltar numa onda e imediatamente cair separado do equipamento.

 

Caio saltando em Jeri Set/2019

 

Lhe chamou a atenção o fato do velejador não levantar imediatamente a cabeça e nadar atrás do equipo. Prestou ainda mais atenção e como não viu nenhuma reação do mesmo, mudou seu rumo e numa orça bastante forte conseguiu chegar ao local, tendo ainda de dar algumas braçadas para alcançar o velejador que estava boiando emborcado, como se olhando os peixes dentro da água.

O Caio o puxou pelo trapézio e a sua cabeça pendeu para trás totalmente desacordado. Teve então a ideia de prender o velejador entre seus braços, segurando-se na prancha e no mastro do rig, mais ou menos como tento representar no esquema abaixo.

 

 

Lembrando que com prancha de baixo volume (85 litros), e mar bastante agitado (no canal externo em Jeri, facilmente paredes de 2 metros de frente), não seria possível deitar o acidentado sobre a prancha. Mas muito provavelmente a posição escolhida pelo Caio foi a mais correta, pois desta maneira ele conseguiu pressionar com os braços e seu próprio corpo contra a prancha e o mastro, até que o homem tendo o tórax pressionado, vomitou um forte jato de água.

Ainda assim a situação era crítica, pois final de tarde restam apenas poucos velejadores na água. Eis que um “Hermano Argentino” que também velejava lá por aqueles dias se aproximou e perguntou se necessitavam de ajuda. O Caio pediu resgate imediato e ele compreendendo a gravidade da situação, rumou imediatamente para o Clube Ventos para aciona-los.

Como o barco estava fora em outro resgate, o Caio estima que estiveram nesta situação à deriva por aprox. 15 minutos, uma eternidade segundo ele, pois o velejador não recobrava claramente os sentidos, seguia vomitando e estava em estado claramente catatônico, e nos raros momentos em que abriu a boca, totalmente desorientado. Fora isto, conforme vinham momentos de lucidez, ele iniciava a se debater (típico de alguém se afogando) e o Caio neste meio tempo teve trabalho em mantê-lo firme na posição, temendo pela sua própria segurança e principalmente pela do homem acidentado. Temia que de certa forma, em função disto tudo, não seria capaz de completar o salvamento.

Finalmente o barco chegou, levaram o homem à praia e após litros de vômito e água expelidas, se recuperou. Foi levado à UPA de Jeri, onde o examinaram e após uma noite completa de observação foi liberado.

Seu equipo foi recuperado pela competente equipe do Clube Ventos, a quem deve seguir também um agradecimento especial pelo excelente trabalho realizado não apenas nesta situação específica, mas durante toda nossa permanência no local.

 

Caio e Uwe

 

Nos dias seguintes, conversamos bastante com o velejador, que descobrimos ser alemão, primeiro nome Uwe, velejador bastante experiente e preparado, já em nível experiente para avançado (faz o Front Loop).

Curiosamente, enquanto o resgate ocorria, eu fazia meu último bordo para fora. Enquanto velejava, mar bastante picado, vento forte, vela 4.5, olhei em volta e percebi estar praticamente sozinho. Imediatamente me veio à mente: Cansado (cerca de 4h de sessão), sozinho, errando já bastante (em função do cansaço, vento e ondas), conclusão: Hora de parar. Quando cheguei na praia, ainda tive a chance de ver nosso amigo Uwe expelindo as últimas golfadas de água.

 

Que ensinamentos podemos levar do ocorrido?

- Colete flutuador é importante. O alemão não estava usando.

- Sempre prestar atenção à sua volta e se necessário prestar o socorro necessário e imediato. Caso o Caio perdesse a possibilidade da orça e tivesse de dar uma perna a mais para chegar ao local, poderia ter sido fatal.

- A posição de salvamento escolhida pelo Caio pode ser uma referência em necessidades do tipo.

- Conhecer (e respeitar) seus limites. Segundo conversa com o próprio Uwe, quando você pensar “É hora de parar”, já deveria ter parado um bordo antes.

 

Parabéns ao Caio. Você foi realmente um herói.

Obrigado à galera do Clube Ventos por toda a assistência.

Obrigado a Deus por ter acompanhado nossa trip e permitido que nosso amigo Uwe tivesse sua segunda chance na vida.

 

Bons ventos a todos,

 

Carlos Jürgens

  

 

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